Dados Qualitativos Rio de Janeiro
Vidigal
Esta página é dedicada a apresentar dados qualitativos coletados sobre a favela do Vidigal, no Rio de Janeiro /RJ, nas etapas de contextualização e de análise do fenômeno investigado. O processo de construção das duas etapas pode ser acessado na página “Metodologia” deste site. Os dados aqui apresentados não estão em estado bruto, mas refletem o processo de coleta e análise de dados feito pela equipe.
Tabelas de Estatística Descritiva do Vidigal
Um dos produtos da etapa de contextualização foram tabelas de análise descritiva sobre o Vidigal , compilando informações dos censos de 2010 e de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O arquivo abaixo contém essas tabelas, com análises preliminares feitas pelo núcleo.

Linha do tempo – Favela do Vidigal
Outro produto da etapa de contextualização foi a linha do tempo do Vidigal. Ela foi elaborada a partir da consulta a bancos de dados públicos, à literatura contextual sobre a comunidade e a partir de uma oficina realizada com lideranças comunitárias. Uma síntese da linha do tempo pode ser visualizada abaixo de modo interativo.

1891
A Companhia Viação Férrea Sapucaí iniciou a construção de uma linha que ligaria Botafogo a Angra dos Reis – uma locomotiva levaria os passageiros numa viagem de 193 quilômetros. Mas foram abertos apenas 800m de estrada.
1898
O inglês Charles Wicksteed Armstrong, diretor do Colégio Anglo-Brasileiro, que ficava na antiga Chácara do Vidigal, prolonga a estrada já existente até o Leblon para melhorar o acesso dos alunos.

1916
Av. Niemayer é inaugurada.
Entre 1933 e 1954
A avenida já foi pista de corrida e ali se realizava o Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, conhecido como Circuito da Gávea ou Trampolim do Diabo, com “carros baratinhas”.
Década de 1940
Iniciam as primeiras ocupações na Estrada do Tambá (atual Av. presidente João Goulart, via principal da favela).
Décadas de 1950 a 1970
O Vidigal sofre várias tentativas de remoção, e em 1977, a mais significativa, na região do 314 na Av. Niemeyer. O poder público alegava riscos de desabamento no local e levaria as famílias para Antares, na zona oeste do RJ. O episódio gerou forte mobilização interna dos líderes da favela junto a Igreja Católica, advogados e artistas que conseguiram barrar a ordem de despejo na justiça. Durante o processo de resistência foi descoberto o interesse na construção de condomínios de luxo na região.

1967
Diante da ameaça, moradores se organizam e criam a Associação de Moradores da Vila do Vidigal – AMVV. A segunda sede foi feita em mutirão, é localizada no meio da favela e é a mesma até os dias atuais. Lideranças: Mário da Luz, Carlos Pernambuco, Seu Armando, Carlos Duque, Paulo Roberto Muniz, Seu Aluísio, Dona Conceição, Dona Manuelina, Dona Luzenira.
Surgimento do Águia Futebol Clube, um famoso espaço de festas e bailes frequentado por moradores e artistas da época. Nos anos 1990 foi vendido para a Igreja Universal.
1970
Jornal Comunitário “Mensageiro do Vidigal” é fundado pelo Marcão do 314 para informar aos moradores sobre os acontecimentos locais e engajar a favela. Circulou até os anos 1990 e, em 2022, teve uma edição especial em comemoração aos 45 anos de resistência contra a remoção de moradores da área do 314.

1974
Inauguração do Hotel Sheraton na Av. Niemayer, entre o Vidigal e Leblon, de frente a prainha do Vidigal. Na época houve tentativa de privatização do acesso à praia pelo hotel, o que gerou revolta a todos os moradores do entorno. Após pressão da associação de moradores e prefeitura foi construída uma escada com 161 degraus, único acesso até hoje, que não contempla idosos, cadeirantes e pessoas com baixa mobilidade.
Criação do time de futebol União Atlético Clube. Além do esporte, a união do grupo visava a organização e fortalecimento comunitário para atuação política em possíveis casos de remoção como foi vivido na tentativa de remoção do 314. Atualmente, o time se reúne para celebração todo o dia 01 de janeiro.

1976
Criação do Grêmio Recreativo Bloco Carnavalesco Acadêmicos do Vidigal com destaque para o Samba do Papa que foi criado anos mais tarde para celebrar a visita do Pontífice e a luta contra a remoção. Compositores: Marquinho do 14, Marcão da Figueira e Moacir Luz. Até hoje tem a tradição do banho de mar à fantasia e também o Bloco da Chaleira que mobiliza a população do vidigal.
1980
Após a repercussão da luta favelada contra a remoção e a relação com a Pastoral de favelas, o Vidigal recebe a visita do Papa João Paulo II e fica conhecido como a “Favela do Papa”. O Pontífice inaugurou a capela construída em mutirão pelos moradores, visitou a casa de Dona Elvira Almeida de Lima e doou o anel episcopal a comunidade, quebrando protocolos e emocionando a todos. O anel original é guardado na Arquidiocese do Rio de Janeiro e a réplica com lideranças locais. Nesta ocasião, a favela recebe a 1ª intervenção urbanística com a construção da rampa do 314 e presença das companhias fornecedoras de água (CEDAE) e energia elétrica (LIGHT). Hoje, o Caminho do Papa, percorrido por João Paulo II foi declarado como patrimônio histórico e cultural de natureza imaterial do povo carioca pela lei nº 8.864/ 2025.
No alto da favela, o comando local da época, “Gato,” iniciou a abertura da área de lazer hoje chamada de “campo” onde mais tarde foram executadas as obras do programa Favela-bairro pela prefeitura, na construção da Vila Olímpica.


1981
O Posto de Saúde Rodolpho Perissé é inaugurado em imóvel cedido por um morador local. É a principal unidade de saúde da comunidade até os dias de hoje. Atendia no passado 5 mil moradores, mas hoje, com o aumento da população, não comporta a demanda local.
1982
O Show Tijolo por Tijolo foi realizado na Concha acústica da Uerj com o objetivo de conseguir recursos para a substituição dos barracos por casas de alvenaria no Vidigal. Participaram artistas como Gonzaguinha, Zezé Motta, Chico Buarque e João Bosco. Também houve um show do Ney Matogrosso no pátio do colégio Stella Maris no Vidigal para arrecadar fundos para as custas do processo contra a remoção.
Em 2015 houve a reedição do evento com as participações de Chico Buarque e João Bosco em comemoração aos 75 anos do Vidigal.

1986
Fundação do Teatro Nós do Morro, organização social local referência em arte, cultura e educação. Atualmente, segue em pleno funcionamento, formando artistas, cineastas e técnicos para o cinema e TV e completou 39 anos de funcionamento.
1990
Tragédia na localidade do “Campo”, devido as fortes chuvas da época, casas deslizaram e moradores vieram a óbito. Muitos moradores se mobilizaram como podiam para ajudar a tirar os sobreviventes da terra até a chegada dos Bombeiros. Hoje é uma área que não é mais ocupada por casas, reservada a mata, tendo ao lado parte da arquibancada da Vila Olímpica.
Pavimentação voluntária das vias do Vidigal e outras obras realizadas por mutirão de moradores, antes do Favela – Bairro (segundo governo Brizola).
1996
O Vidigal é contemplado com o Favela- Bairro, um programa municipal financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que tinha como objetivo integrar a favela a cidade. A favela recebeu obras de infraestrutura (saneamento, água e esgoto), urbanização, equipamentos públicos e políticas sociais. Recebeu também o POUSO (Postos de Orientação Urbanística e Social), posto técnico da prefeitura para orientar os moradores sobre ordenamento urbano. O projeto não foi executado por completo e algumas entregas não foram realizadas, como o teleférico e a abertura de ruas, por exemplo. Destaque para a criação artística dos azulejos da praça do Vidigal, feito pela artista belga Françoise Schein junto com Associação Inscrire, que ganhou o Prêmio Francês de Cooperação Internacional em 2003.
1998
A favela do Vidigal é declarada como Área de Especial Interesse Social (AEIS) para fins de regularização e urbanização de acordo com a Lei Municipal nº 2.704/1998.


2004 a 2007
Vidigal e Rocinha vivem um intenso período de guerra entre facções rivais que tentam dominar a venda de drogas na região. Foram anos marcados por muito medo, violência, tiroteios constantes e muitas mortes. As favelas eram constantemente ocupadas pela polícia.
2004/2005
Manifestação contra o aumento da conta da energia elétrica devido a troca de relógios antigos para medidores digitais. Moradores fecharam a principal via de acesso, a Av. Niemayer, para reivindicarem seus direitos. Foi relatado aumentos abusivos e valores incompatíveis com o que antes era cobrado pela Light, companhia fornecedora.
2007/2008
Cadastramento dos moradores para o início do processo de regularização fundiária executado pela prefeitura na área denominada Jardim Vidigal (que englobou a parte alta da favela: Jaqueira, Arvrão, Campo, 25, Santinho e um trecho da parte baixa – primeira etapa). Algumas famílias apresentaram o “Cada família um lote”, iniciativa do Governo Brizola no fim dos anos 1980 que já estabelecia regras para as construções em favelas, como os dois metros de distância entre as casas.




2011
Jornal do Comércio relatou investimentos que seriam feitos após a ocupação das favelas, e também o processo em curso de titulação. Ao final, apenas algumas famílias receberam.
2012
O Vidigal recebe uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), postos com policiais presentes de forma permanente, parte de um programa estadual de segurança pública. Nesse processo ocorreu a regulamentação do espaço público, controle de eventos, organização do transporte local, regularização e posse das propriedades, embargo a construções de risco, entre outros. Uma consequência importante foi a valorização imobiliária, que culminou em um processo de gentrificação local. Também, nesse mesmo ano, foram distribuídos títulos de concessão de uso da propriedade. Durante o processo aconteceram alguns projetos pontuais para crianças e jovens (aulas de música/instrumento musical e artes marciais), mas foi predominantemente uma política de segurança pública.
Pela localização e potencial turístico, o Vidigal recebe a entrada de muitos empresários e estrangeiros que se instalam na favela, compram casas de moradores e abrem empreendimentos como hostels, restaurantes e bares. Os preços sobem, a favela passa a receber visitantes brasileiros e estrangeiros e passa a ser conhecida como favela-chic.





2012
Houve a tentativa de demolição da quadra esportiva do alto para a construção da sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) local. Essa ação gerou forte mobilização e protesto dos moradores e Associação que embargaram a iniciativa. Na ocasião, uma jornalista que registrava a ação dos tratores e da polícia foi agredida e o policial afastado. A quadra permanece como um equipamento da favela até os dias de hoje.
Ao longo do programa descobriu-se o financiamento de Eike Batista com interesse turístico e econômico em áreas potenciais. Houve a tentativa de remoção de moradores mais antigos para a construção de um condomínio através da “remoção branca”/ especulação imobiliária no local.
2015
Tentativa de mudança de nome da Prainha do Vidigal para “Praia do Ciclista” pelo prefeito Eduardo Paes. A iniciativa gerou protesto dos moradores do Vidigal que frequentam a praia há anos e prefeitura mantém o nome original.





2019
Tragédia na localidade “Jaqueira”. Por conta de fortes chuvas de verão, a enxurrada que desceu do Morro Dois Irmãos ocasionou o deslizamento de casas e o óbito de uma moradora. Moradores, ongs locais e a associação se mobilizaram para ajudar os desabrigados. Após o acidente, a defesa civil interditou a região e um grande processo se iniciou para a remoção das casas, a prefeitura alegou que a região é passagem da água da chuva e não poderiam existir residências ali. Depois de muitos revezes no processo, 64 famílias receberam o aluguel social e propostas de indenização abaixo do valor de suas casas. Os moradores, com medo de novos temporais, da morosidade do processo ou de nunca receberem as indenizações aceitaram os baixos valores que começaram a ser pagos em 2023/2024.
2023
Em 2021, a obra de um espigão cresce a olhos vistos no Vidigal. Após denúncias, em 2022 a obra é embargada por exceder o nº de pavimentos permitidos e ter características de empreendimento imobiliário incompatíveis com legislação em vigor, que autoriza apenas construções unifamiliares. A demolição se inicia em janeiro de 2023.
Com a luta da população por uma clínica da família e falta de espaço na favela, cinco andares do prédio darão lugar a esse equipamento do SUS de acordo com a prefeitura. As obras iniciaram em 2025.



2024
Mototáxis fazem protesto por conta de multas aplicadas pelo não uso do capacete dentro da comunidade. Essa prática que ocorre desde a pandemia, se estendeu por conta de casos de tuberculose crescentes na favela. A av. Niemayer foi interditada e os mototáxis tentaram um acordo com a UPP para reversão das multas.
Representações cartográficas – Vidigal
A partir da etapa de contextualização do Vidigal, foram produzidas representações cartográficas de características socioespaciais, a partir de bancos de dados públicos e de uma oficina com lideranças comunitárias e moradores. As representações cartográficas abaixo expressam:
a) localização no estado e município do Rio de Janeiro, a fim de situar a comunidade em relação às centralidades;
b) em relação às circunvizinhanças, a fim de identificar os limites da favela com seu entorno;
c) em relação ao regime urbanístico e ambiental, a fim de identificar a legislação oficial sobre o território;
d) mapa sócio-participativo, construído em oficina com lideranças e moradores a fim de identificar microáreas, pontos de relevância histórica e social, e limites reais da favela segundo a percepção dos moradores.
Para esta caracterização foram elaboradas representações cartográficas em mapas, utilizando-se os softwares Google Earth e QGIS com camadas importadas das bases de dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (DataRIO, IPP, SMH, SABREN). Para além, foram utilizadas outros dados georreferenciados elaborados pela equipe.
Em relação à centralidade, cabe destacar que as duas favelas integram zonas distintas da cidade do Rio de Janeiro, sendo o Vidigal situado na Zona Sul, área mais infraestruturada e turística da cidade, e Cachoeirinha na Zona Norte, área com menos investimentos em infraestrutura e menor visibilidade. Ao longo da pesquisa esta diferença se refletiu na disponibilidade de dados encontrados sobre os dois territórios.
Sobre o regime urbanístico e ambiental, o Vidigal se divide em seis Áreas de Especial Interesse Social (AEIS), sendo duas destinadas a serviços e equipamentos públicos (em branco no mapa), duas destinadas a parques ecológicos (em verde no mapa), uma destinada a construções de até 2 pavimentos (laranja no mapa), e uma destinada a construções de até 3 pavimentos (em abóbora no mapa).
O mapa sócio-participativo do Vidigal, construído com contribuições de lideranças e outros moradores em oficina realizada pela pesquisa no território, identificou diversos serviços e equipamentos públicos dentro da própria comunidade. Duas creches, dois colégios municipais, uma vila olímpica, um posto de saúde, uma base da CEDAE e uma clínica da família em construção. Em relação aos limites, os moradores foram unânimes em incluir a praia do Vidigal como parte do território, porém não houve consenso quanto ao Colégio Stella Maris, instituição particular que se insere entre o Vidigal, a praia e a Avenida Niemeyer.
Sobre a estrutura fundiária, a pesquisa identificou a existência de um processo de regularização da favela do Vidigal em curso pelo Governo do Estado. Quanto à Cachoeirinha, há a delimitação pela Prefeitura da AEIS para fins de regularização fundiária, mas não foi identificado processo em curso.























